Setembro/2002
OUSAR PARA CRESCER

Por: Hélio Beltrão Soares – Coordenador da UEE/FIEC

Nesta campanha eleitoral, o debate sobre as propostas do futuro governo, a sua condução e viabilidade, têm levado os candidatos a presidente do Brasil a darem destaque a temas econômicos como a estabilidade da moeda, o superávit fiscal, a balança comercial, crescimento regional. Mais uma vez não priorizam o conhecimento Científico & Tecnológico. Falam de mudanças, sem ter uma proposta de governo consistente e inovadora.

As nações que atualmente integram o bloco dos países desenvolvidos detêm, elevados índices de crescimento econômico e, no passado, tiveram governantes ousados que investiram no conhecimento como fator de mudanças estruturais. A proposta deste artigo é a inclusão da política de apoio a pesquisa tecnológica no debate dos planos de governo.

Recentemente, o Jornal Folha de São Paulo publicou, na coluna do jornalista Gilberto Dimenstein, entrevista com o cientista Sérgio Henrique Ferreira que declarou a falta de uma proposta concisa e eficiente da ciência brasileira. O Farmacólogo e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, e membro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América, ressalta:

“Investir para que uma universidade execute o desenvolvimento de um produto para uma indústria é uma deseducação do sistema. Não se pode pôr um estudante de uma pós-graduação para desenvolver uma patente da qual ele não será proprietário”
Sérgio Henrique Ferreira – São Paulo, setembro 2002.

 

 

 

POR QUE OUSAR!

A abertura da economia brasileira, na década de 90, provocou intensa competição entre as empresas aqui instaladas e com países que detemos transações de comércio internacional. A globalização possibilitou o aumento geral do fluxo de transferência de tecnologia. A competitividade na indústria exigiu a modernização de métodos e processos, a aferição da qualidade dos produtos e o atendimento as especificações técnicas internacionais utilizando a ISSO 9000.

Os investimentos estrangeiros diretos, no período de 1996 até o mês de setembro 2002, totalizam US$30,210,2 milhões; sendo: US$8,478,8 milhões no setor elétrico; US$41,4 milhões no setor ferroviário; US$14,995.4 milhões no setor das telecomunicações, US$26,6 milhões no setor portuário; US$1,162.9 milhões no setor de mineração; US$1,947.6 milhões no setor de distribuição de gás; US$3,715.6 milhões no setor financeiro/bancos; US$58,0 milhões no setor de saneamento; e US$457,0 no setor de seguros.

O balanço tem um déficit na conta de transações com o comércio exterior, relativo a contrato de transferência de tecnologia e correlatos. O saldo acumulado no período de 1980 a 1999 totaliza, -US$5,278,733,000. Fonte: MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia. O saldo médio, no mesmo período, foi de -US$263,936,650.

A modalidade de contrato por fornecimento dos serviços de assistência técnica representa o maior dispêndio, com um índice médio na ordem de 66,81%, do total das remessas.

A modalidade de contrato por financiamento de tecnologia representa o segundo maior dispêndio, com um índice médio na ordem de 22,06%, do total das remessas.

“No Brasil as patentes de estrangeiros representam 80% do total de registros no INPI. Grupos empresariais detêm o domínio de alguns setores da nossa economia, e são extremamente competitivos.”

 

 

As demais modalidades de contratos contemplam as licenças de uso/cessão; marcas e patentes; e franquias, com um índice de 11,13%, do total das remessas.

Brasil: Recursos do Governo Federal Aplicados em Ciência e Tecnologia (C&T), 1991-2001
Ano
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999(1)
2000(2)
2001(3)
Valor
2.662,6
1.965,2
2.472,6
3.158,7
3.245,3
3.355,7
3.075,4
2.775,2
2.753,3
2.806,7
3.987,0

Fonte:Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi). Extração especial realizada pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro).

Elaboração: Coordenação de Estatísticas e Indicadores - Ministério da Ciência e Tecnologia.

Notas: Valores monetários expressos em R$ 1.000.000, atualizados pelo Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para a atualização monetária, levou-se em conta a execução mensal dos recursos orçamentários, cujos valores foram atualizados mensalmente para preços médios de 1999 e acumulados anualmente.

1) Os valores para 1999 e anos posteriores não são estritamente comparáveis com os de anos anteriores,tendo em vista que, a partir daquele ano, foram incorporadas ao Ministério da Ciência e Tecnologia instituições anteriormente subordinadas ao Ministério Extraordinário de Programas Especiais.

2) Informações obtidas no Balanço Geral da União de 2000. Valores correntes.

3) Informações obtidas na Lei Orçamentária para 2001. Valores correntes.

Em 1991, os gastos totais do governo federal em Ciência & Tecnologia totalizaram R$2.662,6 milhões, representando 0,29%, do Produto Interno Bruto - PIB. O gasto com pesquisa e desenvolvimento – P&D totalizou, R$1.343,7 milhões, representando 50,5% do total despendido pelo governo. O gasto com atividades científicas e técnicas correlatas – ACTC totalizou, R$1.318,9 representando 49,5% do total despendido pelo governo.

Em 2001, os gastos totais do governo federal em Ciência & Tecnologia totalizaram R$3.987,7 milhões, representando 0,27% do Produto Interno Bruto - PIB.

“O investimento, nos países desenvolvidos, em Ciência e Tecnologia corresponde, em média, 2,6% do seu Produto Interno Bruto – PIB.”

 

 

BR: Recursos dos Governos Estaduais aplicados em Ciência e Tecnologia (C&T),1990-2000

Grandes Regiões e Unidades da Federação

1990

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000(1)

Total

663.674

867.037

832.479

1.007.302

971.864

886.068

1.106.826

1.209.840

1.203.472

1.125.153

1.036.640

Norte

24.006

24.057

3.187

10.031

15.599

3.527

2.015

8.545

9.807

6.643

23.106

Acre

3.701

5.923

4.727

4.735

Amapá

3.145

596

529

393

520

1.115

1.046

1.535

1.781

2.734

4.970

Amazonas

2.271

2.060

52

773

853

681

6.511

Pará

15.331

22.900

1.972

1.656

2.730

330

917

5.218

4.487

1.787

5.972

Rondônia

1.269

498

1.761

4.992

298

324

223

233

Roraima

110

58

674

263

334

17

722

2.362

1.218

674

Tocantins

451

4

13

34

26

6

11

Nordeste

70.392

119.909

69.765

80.238

85.055

93.939

99.391

127.838

139.576

97.663

68.401

Alagoas

3.734

3.468

3.497

6.464

2.741

3.218

2.759

2.954

Bahia

17.308

58.619

31.278

30.411

20.939

20.581

26.032

36.564

58.191

40.835

11.570

Ceará

1.496

1.743

2.379

1.287

6.378

7.103

8.091

25.216

14.490

7.923

6.435

Maranhão

4.804

6.323

6.933

5.605

3.940

7.767

5.003

3.830

1.092

595

2.339

Paraíba

3.581

1.912

582

16.111

14.961

20.945

20.558

19.476

21.667

21.522

5.887

Pernambuco

35.464

44.698

23.876

25.576

29.608

35.169

37.526

35.786

33.319

20.386

32.877

Piauí

1.210

516

560

2.623

5.482

1.867

358

Rio Grande do Norte

2.382

1.845

204

27

5

3.730

Sergipe

1.623

1.301

1.015

1.222

1.551

1.858

1.621

1.603

2.115

1.776

2.251

Sudeste

425.432

631.572

582.444

776.730

632.921

483.404

741.197

793.088

784.414

832.332

759.926

Espírito Santo

1.838

2.053

1.622

159

627

2.197

41.179

39.750

31.055

27.598

14.835

Minas Gerais

107.254

242.702

185.663

191.216

207.301

88.299

103.105

79.217

73.992

48.764

57.422

Rio de Janeiro

36.057

17.163

23.524

21.457

29.098

43.434

227.147

166.764

186.427

174.375

163.278

São Paulo

280.283

369.654

371.635

563.899

395.896

349.474

369.766

507.358

492.940

581.595

524.390

Sul

115.161

78.909

131.863

106.554

160.818

255.069

222.700

239.903

231.780

158.102

152.513

Paraná

38.907

56.465

31.055

49.087

36.351

21.576

40.172

41.110

74.089

Rio Grande do Sul

51.103

44.117

75.397

75.499

86.722

94.711

94.262

86.922

96.360

69.726

75.228

Santa Catarina

25.151

34.792

25.009

124.008

106.862

112.809

94.309

88.376

3.195

Centro-Oeste

28.682

12.589

45.220

33.749

77.470

50.129

41.522

40.466

37.895

30.413

32.694

Distrito Federal

3.864

5.683

1.827

704

26.941

7.485

3.527

7.238

5.165

2.919

2.474

Goiás

8.930

6.693

42.490

29.207

41.995

38.927

35.792

31.252

29.536

24.620

28.171

Mato Grosso

3.155

1.818

3.006

2.596

1.092

Mato Grosso do Sul

15.888

213

903

3.838

5.379

3.717

2.204

157

188

278

957

Fonte: Balanços Gerais dos Estados e levantamentos realizados pelas Secretarias Estaduais de Ciência e Tecnologia ou instituições afins.
Elaboração: Coordenação de Estatísticas e Indicadores - Ministério da Ciência e Tecnologia.
Notas: Valores monetários expressos em R$ 1.000 de 1999, atualizados pelo Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna - IGP–DI - (médias anuais) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). (1) Em 2000 dados preliminares.

Em 1990, os gastos totais do governo estadual em Ciência & Tecnologia totalizaram R$663,6 milhões, representando 0,93% da receita total dos estados. O gasto com pesquisa e desenvolvimento – P&D totalizou R$459,9 milhões, representando 69,3% do total despendido pelo governo. O gasto com atividades científicas e técnicas correlatas – ACTC totalizou R$203,7, representando 30,7% do total despendido pelo governo.

Em 1999, os gastos totais do governo estadual em Ciência & Tecnologia totalizaram R$1.125,1 milhões, representando 0,90% da receita total dos estados. O gasto com pesquisa e desenvolvimento – P&D totalizou R$824,1 milhões, representando 73,3% do total despendido pelo governo. O gasto com atividades científicas e técnicas correlatas – ACTC totalizou R$301,0, representando 26,7% do total despendido pelo governo

Em 2000, os gastos totais do governo estadual em Ciência & Tecnologia totalizaram R$1.036,6 milhões, representando 0,92% da receita total dos estados.

NOTA CONCLUSIVA

Devemos aproveitar a experiência de outros países, em Ciência & Tecnologia, e formular uma política industrial nacional, desta feita de caráter institucional, com a participação das federações estaduais da indústria, dos governos, da sociedade civil organizada, com diretivas estratégicas voltadas para o crescimento econômico e social.

“Urge um projeto coerente de Ciência & Tecnologia voltado para os setores estratégicos nacional – Indústria, agricultura e serviços. A indução da C&T promoverá o desenvolvimento do país, modificará a distribuição da renda e da riqueza, impulsionará a geração de emprego provocará uma melhoria na qualidade de vida dos brasileiros”

 

 

 

A soberania de uma nação, hoje, é de ordem econômica e não territorial, como no passado. Se quisermos ser uma nação desenvolvida, este é o momento mais oportuno para se impulsionar definitivamente o debate sobre a condução da Ciência & Tecnologia.

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