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Uma publicação do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Ceará
Ano 5 - Edição 57 - março de 2012
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SESI

Estudar para crescer

Curso de alfabetização de adultos ministrado pelo SESI/CE no canteiro de obras do novo estádio Castelão faz trabalhadores sonharem com uma vida melhor

Por GEVAN OLIVEIRA

Com 33 anos, quatro filhos e três netos, Francisca Falcão Damasceno é a única pedreira na obra de construção do novo estádio Castelão, em Fortaleza, onde trabalha há oito meses. Ela conta que saiu de casa aos 13 anos, fugindo dos problemas causados pelo alcoolismo paterno. Antes disso, já havia abandonado os estudos na terceira série para trabalhar e se manter sozinha. Casou cedo e logo veio o primeiro filho, hoje com 18 anos (os demais têm 17, 16 e dez anos). Três anos atrás voltou a estudar, mas não em uma sala de aula convencional. Fez um curso profissionalizante, de pedreiro, no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Ceará (SENAI/CE). Desde então, desemprego nunca mais.

Antes de ajudar a construir as lajes do Castelão, Franscisca trabalhou nas obras do Hospital da Mulher, atuando na área de acabamento, sua especialidade. Agora trabalhando no Castelão, o terceiro maior estádio do país e um dos sete que vão abrigar a Copa do Mundo de 2014, ela diz que pretende crescer na profissão, mas entende que, para isso, precisa retomar de novo os estudos. “Quero liderar grupos aqui na construção. Quem sabe chegar a mestre de obras. Para chegar lá, no entanto, tenho de me dedicar aos livros”, reconhece. E é exatamente o que está fazendo, de segunda-feira a sexta-feira, agarrando com força a oportunidade que a Construtora Galvão está oferecendo. A empresa é responsável pelo consórcio que constrói a nova arena esportiva.
 
Francisca faz parte de uma turma constituída de 28 operários, os quais, depois do expediente, encontram forças para absorver conhecimento em busca de uma vida melhor. Em uma sala adaptada nas dependências do refeitório, bem iluminada, ar-condicionado e uma professora motivada, eles aprendem a ler e a escrever por meio do programa SESIeduca, metodologia aplicada pelo Serviço Social da Indústria (SESI) que está melhorando a vida de milhares de trabalhadores pelo país afora. 
 
Quem atesta é a analista de Recursos Humanos da Galvão Engenharia, Damiana Benevides do Carmo: “A parceria com o SESI garante o sucesso da iniciativa em função do know how da instituição, sobretudo na área da educação de adultos, na qual a instituição atua há mais de 50 anos. O SESI é nosso parceiro em vários estados brasileiros, e tê-lo também no Ceará é a certeza de bons resultados”.
 
Damiana explica que os colaboradores não são os únicos beneficiados quando se alfabetizam. A empresa também ganha, porque eles absorvem as tarefas com mais rapidez e naturalidade. “Com a alfabetização, eles se realizam profissionalmente e como pessoa, a partir do momento que adquirem conhecimento e vislumbram ser promovidos”, diz. “Essa motivação pessoal é também sentida na execução das tarefas. Funcionário feliz deixa o ambiente de trabalho melhor. Assim, todos ganham.” Como forma de incentivar a participação dos operários, a Galvão Engenharia paga como hora extra o tempo destinado aos estudos.
 

Brilho no olhar

A professora da turma é a pedagoga Danielly Vidal de Sousa. Trabalhando no SESI/CE há 14 anos, concorda com as declarações da responsável pelo RH da construtora. “Os colaboradores são, de fato, gratos (e também por isso desempenham melhor suas funções) à empresa por ajudá-los a conquistar o sonho de ler e escrever, e ainda vislumbrar serem promovidos. “Existe um brilho especial no olhar dos alunos. É notável ver que estão em busca da dignidade, de elevar a autoestima por meio da escolaridade. Eles reconhecem o valor de uma empresa que se importa com as suas necessidades e os incentiva a conquistar vitórias”, afirma a docente.
 
A turma de operários/alunos do Castelão é composta de pessoas que pouco estudaram, no máximo até o terceiro ano do ensino fundamental. Alguns precisam começar do zero, outros reconhecem o alfabeto e apenas assinam o nome. Apesar dessa diferença, a metodologia SESIeduca permite que todos convivam no mesmo espaço e aprendam o mesmo conteúdo, em intervalos diferentes. Diariamente, a professora repassa o conteúdo dedicado a cada aluno, de acordo com o grau de instrução. No entanto, em alguns momentos, a aula é coletiva, como no caso dos conceitos de cidadania.
 
“A metodolgia SESIeduca é um aprendizado mediado, onde são realizadas atividades diversas em função das diferenças de ritmo de aprendizagem, conhecimentos e experiências prévias. Por esse motivo, procuramos conhecer os interesses – individuais e do grupo – para propor atividades de acordo com o motivo que os levaram a realizar o curso, assim como a valorização dos saberes da vida prática é levada em consideração, porque o aluno é para o SESI um ser de grande potencial”, explica Danielly. 
 
E é baseado nesse princípio motivacional que João Matias Soares, de 48 anos, viúvo e pai de seis filhos, renovou as esperanças no desafio de ler e escrever pela primeira vez. Natural de Russas, município cearense do Baixo Jaguaribe, o servente de pedreiro trabalhou na roça dos dez aos 22 anos, quando se mudou para a capital do estado, Fortaleza. Aqui fez “de tudo um pouco”, desde marteleiro na construção civil pesada, até a função de vigilante noturno. Ele conta que perdeu várias oportunidades de emprego por ser analfabeto, mas pretende aproveitar bem o momento. “Mesmo que não surjam outras propostas de trabalho, vou tentar fazer meu próprio destino. Sonho em concluir os estudos algum dia para fazer um curso de vigilante armado”, afirma o operário que não perdeu a liberdade de sonhar e planejar o futuro. 
 
A mesma esperança em um futuro melhor está presente em Márcio Carvalho Silva, casado, de 28 anos e pai há sete meses. Nascido em Fortaleza, diz que nunca estudou porque passou por dificuldades na infância. Foi criado pelos avós e teve de trabalhar para cooperar com o sustento de casa. “Aprendi a me sustentar sozinho, ainda criança. Trabalhei de ajudante em bandas de forró, como martelete, costureiro e auxiliar de cozinheiro, dentre outras atividades. Por isso não sobrava tempo para dedicar aos estudos.” Mas a vida de Márcio começou a mudar quando conheceu sua esposa, que o aconselhou a estudar. Antes mesmo de começar o curso na empresa, ela já lhe ensinava as primeiras letras. “Hoje quero muito ser alfabetizado e depois continuar os estudos para dar uma vida melhor à minha mulher e filha.”
 

Como oferecer educação

É fato que o desenvolvimento socioeconômico de um país está diretamente relacionado ao avanço de seu sistema educacional. Tais impactos se refletem em  fatores que vão desde o acesso a melhores empregos até o aumento da participação feminina no mercado de trabalho. No Brasil, dos quase 190 milhões de pessoas, há 14,2 milhões de analfabetos com mais de 15 anos. Na indústria, dos 9,8 milhões de trabalhadores, 5,3 milhões não têm escolaridade básica.
 
Para tentar mudar tal quadro, o SESI, que atua na educação básica de jovens e adultos desde 1947, desenvolveu, ao longo dos anos, uma série de programas específicos voltados à educação de variados públicos, sempre pensando nas questões econômicas e culturais de casa região. Dentre essas metodologias está o SESIeduca, considerado hoje um dos mais completos programas de aprendizagem para os ensinos fundamental e médio do Brasil para jovens e adultos (EJA).
 
A iniciativa, que integra o programa SESI Educação do Trabalhador, faz com que o aluno pense e debata, abordando as diversas matérias que fazem parte de um mesmo assunto, de maneira que ele possa realmente entender o que é ensinado. As aulas são aplicadas a cenários da realidade do aluno, que assim passa a ter uma melhor compreensão do que está aprendendo.
 
O SESI Educação do Trabalhador é desenvolvido nos 27 Departamentos Regionais do SESI, contando com a adesão de empresas, secretarias estaduais e municipais de educação, prefeituras, sindicatos, igrejas e associações comunitárias. O SESI, como gestor da iniciativa, é responsável pela implantação e capacitação dos profissionais, supervisão, definição metodológica, avaliação e certificação dos alunos. Desde que foi criado, o programa atendeu mais de 1 milhão de alunos-trabalhadores em todo o país. No estado do Ceará, somente em 2011, foram efetuadas mais de 4 600 matrículas.
 

Cursos oferecidos pelo SESIeduca no Ceará

  • Ensino Fundamental I – alfabetização à 5ª fase (alfabetização à 4ª série)
    Duração de 24 meses letivos – quatro fases com duração de seis meses cada
  • Ensino Fundamental II – 6ª à 9ª fase (5ª à 6ª série)
    Duração de 24 meses letivos – quatro fases com duração de seis meses cada
     
  • Ensino Médio – 1ª à 3ª fase (1º ao 3º ano)
    Duração de 18 meses letivos – três fases com duração de seis meses cada
 

Serviço

O empresário que quiser implantar o programa SESI Educação do Trabalhador em sua empresa, basta entrar em contato com o SESI/CE pelo telefone (85) 3421 5410 e solicitar a visita de um analista, que dará todas as informações necessárias à implantação da sala de aula em seu negócio.
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