Redação
Anúncios
 
Uma publicação do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Ceará
Ano 4 - Edição 42 - novembro de 2010
ediÇÕes anteriores
 

Publicada em 28.11.2010

Turismo sustentável

CEARÁ
Turismo sustentável 
Nosso estado não é somente sol e mar. Existem outras opções menos exploradas, mas com grande potencial para a sustentabilidade turística, como as riquezas naturais e o turismo religioso

POR LUIS HENRIQUE CAMPOS

O estado do Ceará registrou este ano na última alta estação, em julho, crescimento de 17% no número de visitantes, comparado ao mesmo período de 2009. Passaram por aqui 332 985 turistas. Como resultado, houve aumento de 13,6% na ocupação hoteleira e a entrada de R$ 824 milhões nos cofres estaduais. Com base na pesquisa sobre o perfil do turista que nos visita, realizada pela Secretaria do Turismo do Ceará (Setur) a cada alta estação, o número de pessoas que viajaram em família cresceu 47,3% em 2010, contra 41,9% em julho de 2009. Em termos reais, o aumento observado entre os casais com filhos foi de 12,88% no período analisado.

No item relativo à faixa etária, 66,6% dos visitantes se enquadram entre 26 e 50 anos; 16,2% estão acima de 51 anos e 17,2% têm idade inferior a 25 anos. Desse total, 63,3% declararam ter nível superior. O principal emissor nacional foi São Paulo, respondendo por 24,63% dos visitantes, seguido pelo Rio de Janeiro, 10,95%, Distrito Federal, 7,19%, e Pará, 6,99%. Quanto aos estrangeiros, os turistas italianos representaram 25,2% dos que estiveram no Ceará em julho, seguidos pelos portugueses, 16,9%. Dos turistas que nos visitaram, 44,4% vieram pela primeira e 55,6% já tinham vindo ao Ceará.  Em  comparação com 2009, ocorreu aumento em relação aos que nos visitam pela primeira – no ano anterior foram 40%. Em compensação, registra-se uma diminuição na quantidade de turistas que voltaram, percentual que ficou em 60% no ano de 2009.

Um aspecto que chama a atenção na pesquisa é que 81,7% das visitas ao Ceará se resumiram, além de Fortaleza, a cinco localidades: Aquiraz, Caucaia, Aracati, Beberibe e Jericoacoara. Além dessas, o litoral cearense foi privilegiado com turistas nos municípios de Paraípaba (3,5%), São Gonçalo do Amarante (1,7%), Cascavel (1,1%) e Paracuru (0,8%), entre outros. As belas serras alencarinas, por sua vez,  receberam apenas 4,5% dos visitantes, sendo Tianguá, com 1%, o município que mais contou com visitantes. No Sertão, esse número sobe para 13,8%, liderado por Sobral ao receber 1,6% dos turistas que estiveram no Ceará em julho. Depois da Princesa do Norte, os demais municípios que atraíram a atenção foram Juazeiro Norte (0,7%), Canindé (0,5%), Crateús (0,4%) e Iguatu (0,4%).

A pesquisa foi feita em Fortaleza nos principais portões de saída (aeroportos e rodoviárias) e pontos turísticos (Beira Mar, Praia do Futuro, Centro de Turismo, Dragão do Mar, Mercado Central, Avenida Monsenhor Tabosa e Praia de Iracema). Principal polo catalisador de visitantes no estado, Fortaleza, portanto, é a cidade que mais se beneficia da entrada de turistas, conseguindo praticamente unir sua imagem ao estado como um todo. Prova isso o fato de que em dezembro, dos 30 maiores hotéis da capital, 18 não têm mais vagas para receber hóspedes entre a última semana do mês e a primeira de janeiro de 2011.

A crescente procura por Fortaleza e pelas praias próximas, por outro lado,  pode estar escondendo potenciais áreas turísticas do estado, talvez criando problemas no futuro quanto à sustentabilidade do modelo de turismo adotado pelo Ceará. Para Sílvia Romero, economista e turismóloga, pós-graduada em gestão pública, competitividade e sustentabilidade, o turismo sustentável tem como conceito três pilares: o ambientalmente correto, o economicamente viável e o socialmente justo. “Estamos  indo nesse caminho?”, questiona. Ao tentar dar uma resposta, Sílvia lembra que o governo estadual optou por trazer investidores de fora, mesmo que os projetos não sejam sustentáveis. Os melhores negócios – sejam pousadas ou restaurantes – não são iniciativas cearenses. Poucos têm DNA alencarino.

Para ela, os projetos que estão sendo implantados no Ceará não levam em conta a questão da sustentabilidade. E um dos princípios básicos desse conceito é incluir as comunidades que estão sendo atingidas pelos equipamentos turísticos. “Se queremos sustentabilidade, devemos fazer com que os investidores venham para cá, mas implantem os empreendimentos levando em conta essa questão”, alerta Sílvia Romero. Nesse aspecto, a especialista destaca exemplos de empreendimentos no Ceará que começaram empregando trabalhadores das localidades, e hoje não têm mais nenhum cearense no seu quadro de funcionários. “São todos de fora”!, exclama.

Silvia também critica o perfil do turista que vem para cá porque a maioria não está nem aí com o turismo sustentável, que interessa a pessoas mais voltadas à questão cultural e que interagem com os nossos valores e a nossa cultura. Para atrair gente assim, a economista entende que é preciso desenvolver  convenientemente o potencial de atrativos do estado. “Aqui parece que só há praia. Esquecemos o processo histórico e até outras formas de turismo que poderíamos ter, como o religioso, o científico e o rural”, ensina. 

Em relação ao turismo rural, o estado ainda engatinha. Turismo rural é um empreendimento interligado com outros aspectos da comunidade na qual está inserido. Não é apenas uma fazenda fincada fora do centro da cidade. “Esse modelo de uma fazenda, muitas vezes até em área urbana, mais isola o turismo mostrando as riquezas de cada região do que o aproxima, quando deveria ser o contrário”, alerta Sílvia. “O problema é que está se criando um esboço de turismo que exclui as demais atividades existentes no entorno, o que poderia ser agregado como potencial turístico.” Para ela, outra situação clara de falta de aproveitamento do potencial turístico no Ceará é o que se relaciona com a religião. “Temos por aqui grandes oportunidades com Canindé e Juazeiro do Norte. Mas não existem políticas públicas voltadas para o turismo religioso”, arremata Sílvia Romero.



Conflitos com comunidades

A divulgação da imagem do litoral cearense como um local quente o ano todo e com diversas belezas naturais tem atraído cada vez mais investidores interessados em montar equipamentos turísticos. Nos últimos tempos, surgiram  grandes empreendimentos bancados por  empresas estrangeiras e fundos de investimento internacionais, que adquiriram grandes extensões de terra nessas áreas.  Em muitos casos, os empreendimentos se destinam a um público estrangeiro acostumado a fugir do intenso frio em seus países de origem.

Como atrativos para os resorts, a beleza natural da região e o clima, além de vasta área ainda inexplorada pelos 573 quilômetros de costa. São fatores que atraem investidores há pelo menos dez anos, segundo números da Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico do Nordeste Brasileiro (Adit Nordeste). Mas se o boom de empreendimentos turísticos em áreas litorâneas é extensivo a todo litoral nordestino, é verdade que os problemas decorrentes dessa ocupação parece não ter fim. No Ceará, por exemplo, com base em dados de 2009, cerca de 130 ações civis públicas ajuizadas pelo Ministério Público Federal (MPF) questionavam a instalação na costa cearense de equipamentos turísticos, loteamentos imobiliários, casas de veraneio e parques eólicos.

Os questionamentos variavam desde construções irregulares a invasões de áreas de preservação ambiental permanente. As ações também apontam desmonte de dunas, desmatamento de vegetação, localização de dejetos e agressão a manancial hídrico. Dos agressores, 114 eram particulares. Mas os órgãos públicos também não ficaram de fora, sendo que oito eram, em tese, os que teriam a prerrogativa de legislar sobre essas áreas. Na época, Fortim foi o município com o maior número de agressões constatadas pelo MPF, resultando em 71 ações que deram entrada na Justiça Federal. Em seguida, apareciam Aracati (19), Aquiraz (8), Jijoca de Jericoacoara (6) e Eusébio (4). Além desses municípios, as ações detectaram problemas em Barroquinha, Cascavel, Beberibe, São Gonçalo do Amarante, Itarema, Acaraú, Paracuru, Caucaia e Icapuí.

Um dos principais aspectos geradores dos conflitos está relacionado à superposição de atribuições dos órgãos fiscalizadores nos seus três níveis. Não são incomuns decisões em vias opostas da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Para agravar ainda mais esse quadro, muitos dos municípios que deveriam assumir o papel de legislar sobre essa faixa do seu território não possuem nem plano diretor definindo o que pode ser feito. Aliados a isso, loteamentos e casas de veraneio ganharam espaço em locais antes ocupados por comunidades pesqueiras e indígenas, criando outra situação conflituosa no que diz respeito ao desvirtuamento da cultura desses povos.

Além do binômio sol e mar

Ao binômio sol e mar, que vem sendo o grande atrativo do turista para vir ao Ceará, podem ser somadas outras opções ainda pouco exploradas, mas com grande potencial para crescer. A opinião unânime de estudiosos do assunto, todavia, não tem merecido a devida atenção do poder público para ampliar essas possibilidades. Aqui se enquadrariam as riquezas naturais existentes em serras e noutras regiões do estado, uma forma de vender o ecoturismo, além das romarias em Canindé e Juazeiro do Norte ou o geoturismo na região do Cariri por meio do Geopark Araripe. São 3 520,52 quilômetros em seis municípios: Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri. Enquanto não se define uma política específica para explorar essas potencialidades, o turismo de negócios no Ceará acena como a bola da vez para os próximos anos com a construção do Centro de Feiras de Eventos pelo governo do estado.

No campo do turismo religioso, Canindé e Juazeiro do Norte chegam a receber cerca de 2,5 milhões de visitantes por ano. Estudo do Ministério do Turismo (MT) aponta que no Brasil 15 milhões de turistas têm interesse em explorar destinos religiosos. Para tentar impulsionar tal segmento, o MT prepara um mapeamento das viagens voltadas a destinos religiosos no país. O estudo identificou 96 produtos turísticos com foco na religiosidade. Somente eventos católicos são 177 por ano. As romarias para Juazeiro do Norte, por exemplo, movimentam anualmente R$ 600 milhões, conforme estimativa da prefeitura, ou uma média de gasto de R$ 300 por romeiro. São cinco romarias todos os anos.

Um outro estudo realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) em 2007, também a pedido do MT, já mostrava o potencial do segmento: 8,1 milhões de viagens domésticas eram movidas pela fé – o equivalente a 3,6% de todas as viagens feitas no país por ano. O público evangélico é também um importante segmento do crescente turismo religioso. Recentemente, a agência CVC, maior operadora brasileira de turismo, fretou pela primeira vez um de seus navios para o público evangélico.

Turismo sustentável e infância

Uma das piores chagas que acometem as cidades turísticas brasileiras é a exploração sexual de crianças e adolescentes. Em 2004, alguns ministérios passaram a trabalhar em favor da proteção e no enfrentamento da exploração sexual contra crianças e adolescentes. Com base nisso, o Ministério do Turismo lançou, no final do mesmo ano, o programa Turismo Sustentável e Infância (TSI), com o objetivo de prevenir e enfrentar a exploração sexual de crianças e adolescentes nos equipamentos turísticos. Como princípios, o desenvolvimento sustentável, a responsabilidade social corporativa e os direitos da criança.

O TSI foi estruturado em quatro eixos de ação: projetos de inclusão social com capacitação profissional, formação de multiplicadores, seminários de sensibilização e campanhas de esclarecimento.  No total, nesse período, mais de cem mil pessoas trabalhando com turismo foram sensibilizadas. Em relação às campanhas, desde 2006, foram distribuídas mais de 4 milhões de peças de comunicação (como folders e viseiras) com versões, inclusive, em inglês e espanhol. As ações contam com a participação de agentes públicos federais, estaduais e municipais, empresários, profissionais do turismo e segmentos da sociedade civil.

Em Fortaleza, segundo Luiziânia Gonçalves, consultora do TSI, o projeto foi adotado pela prefeitura em 2007. “Fizemos esse trabalho a partir da criação de um órgão específico para tratar a questão do turismo – a Secretaria de Turismo de Fortaleza (Setfor). A iniciativa envolveu a criação de cursos de garçom, camareira, área de eventos e recepcionistas. Os cursos eram de 200 horas/aula e foram treinadas cerca de 350 pessoas na faixa etária de 16 a 26 anos. Ao final,  25% dos participantes estavam empregados. O público-alvo são pessoas em situação de vulnerabilidade, que fizessem parte do programa Bolsa Família e estivessem estudando. Atualmente, destaca Luiziânia, uma nova etapa está treinando 300 jovens em cursos de qualificação para o desenvolvimento de projetos culturais na área de turismo (iluminadores, sonoplastas e produtores culturais). A nova turma conclui o curso em dezembro.

LEIA MAIS
Mensagem do Presidente
por Roberto Proença de Macêdo

Oito lições desses oito anos

Nos oito anos em que presidi a FIEC pude obter alguns resultados com a concretização de aspirações, baseadas em conceitos que me acompanham ao longo da vida empresarial. Nesta que é a minha última Mensagem da Presidência, compartilho a alegria de ver que foi possível realizar algumas destas aspirações juntamente com meus colegas de diretoria.



Leia mais
Notas e Fatos
 
Ponto de Vista
 
Frases e Idéias