|
Ao
contrário do que ainda se pensa no exterior, os
brasileiros não são apenas os donos da bola. São
também craques de primeira linha em pesquisa e
desenvolvimento de produtos. O problema é que,
até pouco tempo atrás, idéias de produtos com
potencial de mercado simplesmente não se
concretizavam. Faltava apoio para que cientistas
e pesquisadores virassem empresários. Esse
quadro só começou a ser revertido a partir da
instalação das primeiras incubadoras de
empresas e centros tecnológicos nas
universidades brasileiras. Hoje, incubadores e
centros de tecnologia são dois dos mais
importantes apoiadores dos pequenos negócios no
Brasil.
Micro
e pequenas empresas brasileiras que hoje
disputam um lugar nos mercados nacional e
internacional nasceram em incubadoras. Porém,
antes de incubadas, elas não passavam de boas
idéias surgidas das inquietas cabeças dos
pesquisadores. Devidamente capacitadas, viraram
bons negócios, capazes de gerar emprego e
renda, e de contribuir para o aumento da
arrecadação dos municípios. É o caso da
Polymar Indústria e Comércio Importação e
Exportação Ltda., de base tecnológica,
sediada em Fortaleza (CE). Antes de andar com as
próprias pernas, a empresa passou por um período
de incubação no Parque de Desenvolvimento
Tecnológico (Padetec) da Universidade Federal
do Ceará (UFC).
Especializada
na produção de biopolímeros obtidos a partir
da carapaça de crustáceos (camarão, lagosta e
caranguejo), a Polymar vende para todo o mercado
nacional e para o Mercosul. Os dois principais
biopolímeros fabricados pela empresa são a
quitosana e a quitina. A partir deles, são
feitos produtos de alto valor agregado, como o
Fybersan, primeiro a ser fabricado pela empresa
e carro-chefe de vendas. Suplemento alimentar à
base de quitosana, o Fybersan ganhou fama por
causa de suas propriedades de emagrecimento. Ao
ser ingerido, ele captura as gorduras dos
alimentos e impede a absorção do colesterol,
provocando a perda de peso.
Alexandre Cabral Craveiro, doutor em química
orgânica e sócio-proprietário da Polymar, diz
que sempre pesquisou os dois polímeros marinhos
(quitosana e quitina), até porque eram matérias-primas
abundantes nas praias do litoral cearense. Mas,
para transformá-los em produto, era preciso
estrutura de laboratório, além de aprendizado
em gerencial e comercial. "Sem a incubadora
dificilmente esse projeto teria nascido. Até
porque eu era apenas um pesquisador que não
tinha nenhuma vivência como empresário, e que
ainda vivia naquele clima de quebra de paradigma
entre o meio acadêmico e o empresarial",
recorda.
No início, a Polymar ocupou uma área de 80
metros quadrados dentro da incubadora do Padetec.
Com o sucesso do Fybersan essa área precisou
ser ampliada para 120 metros quadrados.
"Necessitamos de muita criatividade,
improvisação, dedicação, inovação e motivação
para, a partir do zero, começar uma produção
na época quase artesanal de quitina e quitosana
a partir de equipamentos criados ou adaptados
por nós", diz Craveiro. O esforço, ao que
tudo indica, está sendo recompensado. Hoje, além
do Fybersan, a empresa fabrica outros sete
produtos na área de suplementos alimentares. Além
disso, é a única do país a produzir quitosana
em escala industrial.
Em 2000, já com alguns produtos consolidados no
mercado nacional, a empresa emancipou-se.
Transferiu-se para uma área de 2.150 metros
quadrados no distrito industrial de Fortaleza,
em um projeto que consumiu investimentos da
ordem de R$ 600 mil. Desde então, o pesquisador
sente na pele alguns dos problemas diários
enfrentados pelos pequenos empresários
brasileiros como pouca disponibilidade de
recursos e dificuldade de comercializar e
divulgar os novos produtos. "O processo de
gestão fora da incubadora é sempre traumático.
Há até um paradoxo, porque quanto melhor for o
trabalho da incubadora, mais traumático será o
processo de emancipação", avalia
Craveiro.
Apesar das dificuldades, a empresa, que gera 26
empregos diretos e outros 78 indiretos, continua
a ganhar mercado. Recentemente, fechou contrato
com uma grande distribuidora de medicamentos de
Goiânia (GO), que vai distribuir um produto de
alta tecnologia produzido pela Polymar. Trata-se
de uma bandagem hemostática feita a partir da
membrana da quitosana. O produto pode ser
utilizado para estancar sangramentos em
procedimentos cirúrgicos como cateterismo e
angioplastia. "Depois, pretendemos
popularizar a bandagem para uso doméstico e
atendimentos de urgência", avisa o
proprietário da Polymar, que investiu R$ 150
mil em pesquisa e fabricação do novo produto.
Apesar de preferir não dar conselhos, ele diz
que não resta outra alternativa ao micro e
pequeno que hoje tem uma empresa incubada e
amanhã estará no mercado senão ter força de
vontade e persistir. "O que não dá é
para desistir na primeira dificuldade",
assinala Craveiro.
Rodrigo
Rievers
|