:: 10.06.03 ::

Fórum Brasil-África
Mudança e continuidade


A reinauguração de uma política africana no governo Lula poderá estabelecer o louvável equilíbrio entre a tradição e a apreensão. A tradição está contada nos livros já escritos. O novo está por se fazer

José Flávio Sombra Saraiva
Professor

Fortaleza se tornou o coração da inserção universalista do Brasil. Foi ela escolhida para ser o centro nervoso para o relançamento de um capítulo essencial à afirmação internacional do Brasil. O Fórum Brasil-África tem tudo para ser um marco na retomada da dimensão africana da política exterior do Brasil, depois de quatro décadas de oscilações e oportunidades nem sempre bem exploradas pelos dois lados do Atlântico Sul.

O ambiente que se criou na capital cearense, já bem antes do Fórum, demonstra que a sociedade local está atenta ao gesto do Brasil para com os seus vizinhos ribeirinhos. E a sociedade brasileira, por meio de seus vários setores interessados em maior dinamismo do novo governo Lula nesse área, aguarda com expectativa os desdobramentos do Fórum. A pergunta que se faz é a do que se pretende no relançamento da política africana do Brasil.

A inclusão da África na agenda da política externa brasileira deu-se de maneira gradativa e correspondeu à importância crescente do continente no âmbito das relações internacionais nas últimas décadas. Embora o mesmo se possa dizer acerca das relações da África com seus demais parceiros internacionais, o que distingue o Brasil de outros países é que ele teve razões adicionais para estar presente, e esteve, nos momentos mais dramáticos da vida política e econômica daquele continente.

Esse laço construído ao longo do tempo permitiu enfrentar a volatilidade das conjunturas. O cabedal de informações mútuas e de conhecimento acumulado por diplomatas, empresários, intelectuais e formuladores de opinião permite vislumbrar a superação das dificuldades que podem aparecer na implementação de uma política mais nítida para a África.

Em quatro décadas foi possível construir no Brasil uma base de conhecimento mínima, ainda que precária, para poder avançar sobre as possibilidades de conhecermos e atuarmos naquele continente. Esses aspectos, entre outros, permitiram certa continuidade nas quadraturas difíceis, como a dos anos 1990, na qual o silêncio imperou em nossas relações com os países africanos.

A diplomacia brasileira, que teve o mérito de ter dado consistência conceitual à aproximação histórica do Brasil à África nas décadas anteriores, está agora novamente convocada a trabalhar nesse frente, de forma assemelhada ao que já está se fazendo no espaço sul-americano. Mas ela enfrentará agora novos desafios com o de trabalhar mais próxima à sociedade civil, às universidades, aos grupos organizados e ao Parlamento. Nesse sentido, a reinauguração de uma política africana no governo Lula poderá estabelecer o louvável equilíbrio entre a tradição e a apreensão. A tradição está contada nos livros já escritos. O novo está por se fazer.

A nova política africana do Brasil não poderá, nesse sentido, ser apenas a reedição do passado. Inconcebível seria que procurasse reeditar os equívocos anteriores. Parte da velha política estava acoplada à vulnerabilidade energética do Brasil dos anos 1970 e 1980. A nova necessita ser escrita pela via ativa, e não apenas reativa, de acompanhamento dos novos desafios da agenda internacional dos dois lados do Atlântico.

Em outras palavras, necessitamos que a nova política africana do Brasil não seja um ato de retórica. Ela deverá servir ao conjunto das sociedades de todos os países envolvidos, na articulação em favor do acesso dos nossos produtos nos mercados fechados do Norte. Ela terá que atuar na ampliação do horizonte da multipolaridade internacional. Ela terá que trazer benefícios para as populações que continuam a assistir à desvalorização das suas culturas e à deterioração gradual das suas condições da vida social e educacional. Ela terá que construir um parapeito, como lugar estratégico, para avaliarmos e reagirmos à forma aviltante com que o processo de globalização atuou nas economias ditas periféricas.

Se não fizermos isso, nada de novo sairá da continuidade ciclotímica do passado, e continuaremos a louvar a africanidade brasileira. A agenda do Fórum Brasil-África, em Fortaleza, parece querer mudar. O Brasil e a África querem mudar juntas. Esse é o desafio de Fortaleza.

José Flávio Sombra Saraiva é PhD pela Universidade de Birmingham (Inglaterra), professor da Universidade de Brasília (UnB)e autor dos livros O Lugar da África: a Dimensão Atlântica da Política Exterior do Brasil e Formação da África Contemporânea, entre outros sobre o assunto

Fonte: Jornal O Povo

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