:: 10.02.2007 :: |
Exportações cearenses: novos desafios |
Luiz Antônio Gouveia de Oliveira
Fonte: Jornal O PovoMais um ano se passou e ainda não foi desta vez que o Ceará conseguiu superar a barreira do primeiro bilhão de dólares em exportações. Em que pese todo um esforço conjunto desenvolvido com esse objetivo por organismos públicos federais e estaduais e instituições representativas do empresariado cearense, o estado não só não atingiu a meta simbólica de US$ 1 bilhão em exportações como também não conseguiu - mais uma vez - acompanhar a velocidade de crescimento das exportações brasileiras como um todo. A pergunta que se impõe neste momento é: por que razão, ou razões, nossas vendas externas cresceram tão pouco (menos de 3%, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Governo Federal) a ponto de comprometer a meta estabelecida. Alguns especialistas em comércio exterior apressam-se em apontar o enfraquecimento do dólar em relação ao real como o principal entrave da expansão das exportações do Estado. Ora, se a taxa de câmbio do dólar é a mesma para todas as empresas brasileiras, como explicar, então, o fato de que as exportações do País cresceram 16% e atingiram valores recordes no ano de 2006? Na verdade, o fator 'câmbio' explica apenas em parte a quase estagnação da pauta de exportações do Ceará, dado que seu impacto nas vendas das empresas é maior ou menor conforme o setor de negócios. Naquelas atividades onde a concorrência é mais acirrada - como é o caso da indústria têxtil - e as margens de lucros são apertadas, os efeitos do dólar depreciado são mais devastadores. Além disso, as conseqüências da taxa de câmbio atual fazem-se sentir ainda mais entre as empresas de pequeno porte, haja vista as limitadas alternativas de crédito de longo prazo, capital de giro e de gestão que são características desse segmento. Outra razão apontada pelos analistas para o fraco desempenho exportador do Ceará em 2006 tem sido a forte concorrência - muitas vezes, desleal - de empresas chinesas, vietnamitas e indianas, cujos produtos fabricados com baixíssimo custo vêm competir inclusive no mercado brasileiro. Essa é uma realidade especialmente verdadeira para as indústrias de calçados e de castanha de caju - os dois principais itens da pauta de exportação do estado. A concorrência, no entanto, faz parte do jogo do negócio e assim sempre será, variando em maior ou menor grau conforme a atividade e o(s) mercado(s) em que a empresa atua. Na verdade, antes de serem as causas diretas do baixo desempenho das exportações cearenses em 2006, os impactos negativos do dólar enfraquecido e da concorrência asiática sobre as empresas exportadoras do Ceará são indicadores da fragilidade do comércio externo do Estado. Essa fragilidade se revela principalmente na diminuição do número de empresas exportadoras e, por conseguinte, na concentração excessiva das vendas externas em algumas poucas empresas de grande porte. Se analisarmos com cuidado o histórico recente dos negócios do Ceará com o exterior, observaremos que no ano de 2004 havia 322 empresas exportadoras contra 306 no ano de 2005 (queda de 5%). Embora não se conheçam ainda as estatísticas relativas ao ano de 2006, dados preliminares referentes ao período de janeiro a setembro já indicavam uma redução de 6% a 7% no número de exportadores em relação ao mesmo período do ano de 2005. Na direção contrária está a distribuição das vendas externas, em que as 40 maiores empresas exportadoras responderam por 77%, 82% e 87% das exportações cearenses nos anos, respectivamente, de 2004, 2005 e 2006. Estas empresas, no entanto, não conseguem expandir suas vendas de forma a compensar o abandono do mercado por aquelas de menor porte, resultando no fraco desempenho das exportações do Estado no ano passado. Portanto, a retração no número de pequenas e médias empresas exportadoras e a expansão limitada das vendas externas das empresas de grande porte podem ser apontadas como as reais causas do tímido crescimento das exportações cearenses em 2006. Mais grave que o fraco desempenho da balança comercial, entretanto, é o fato de que a saída das pequenas empresas dos mercados externos praticamente joga por terra todo o esforço desenvolvido ao longo dos últimos 10 anos para se criar uma cultura de negócios internacionais no empresariado local e ampliar a base exportadora do estado. Apesar dos bons resultados obtidos pelas políticas públicas de estímulo à atividade exportadora, o agravamento da questão cambial e o acirramento da concorrência asiática nos últimos dois anos levaram muitas empresas que não estavam devidamente preparadas ou efetivamente comprometidas com o comércio exterior a abandonar os mercados internacionais. O recuo no número de exportadores e a conseqüente estagnação da balança comercial sugerem que as novas políticas de desenvolvimento das exportações cearenses têm de ser mais seletivas, mapeando e apoiando as empresas realmente orientadas para o mercado externo e capazes de superar os efeitos negativos do câmbio depreciado e da concorrência acirrada. É necessário, portanto, dar um passo adiante e imprimir uma mudança qualitativa na política de promoção das exportações do Ceará. A par do esforço contínuo de diversificação de produtos exportados e de países-destino, será imperioso otimizar a aplicação dos escassos recursos públicos e garantir a adesão de empresas com visão estratégica de mais longo prazo em relação aos negócios internacionais. Neste sentido, os programas e projetos de incentivo à exportação devem ser estruturados e direcionados às empresas conforme seu perfil exportador. Exportadores experientes, por exemplo, tendem a ser motivados a exportar mais através da remoção dos obstáculos à concretização dos seus negócios. Exportadores esporádicos ou marginais podem ser incentivados a tornarem-se regulares por meio de uma exposição mais sistemática às oportunidades de contratos com o exterior e através do suporte de consultorias gerenciais e tecnológicas.Finalmente, aquelas empresas que nunca despertaram para o comércio exterior podem ser sensibilizadas e convencidas através de programas que contemplem seminários, congressos e, principalmente, formação continuada em negócios internacionais, incluindo aí o estudo de idiomas, assim como intercâmbio e estágio profissional no exterior. Enfim, realidades específicas exigem intervenções apropriadas. Não fazem sentido, portanto, a formulação e a execução de políticas públicas que atendem de forma homogênea empresas com diferentes percepções e níveis de envolvimento com a atividade de exportação. Partindo desse princípio, a concepção e implementação de programas específicos poderão contribuir muito mais para se atingir a tão sonhada meta do primeiro bilhão de dólares em vendas para o exterior e, mais importante que isso, para aumentar de maneira significativa a participação das exportações cearenses no contexto das exportações da região nordeste e das exportações brasileiras como um todo. Luiz Antônio Gouveia de Oliveira é economista e doutorando em Administração de Empresas pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra - Portugal. |