Estudiosos querem fazer mapa 3D da crosta terrestre da região e descobrir causa de sismos em três estados
Fabiana Vasconcelos Da Secretaria de Comunicação da UnB
Sob os pés de quem caminha nas praias no Nordeste há quilômetros de rochas que formam a crosta terrestre. Mas qual será a espessura dessa camada? Responder a essa pergunta é o objetivo de nove instituições, entre elas a Universidade de Brasília (UnB), que desenvolvem pesquisas de Geociências na região. Um dos objetivos é identificar a causa de terremotos.
Até o final de 2008, os cientistas devem realizar um teste fundamental para chegar a essa informação, baseado na análise da propagação de ondas pela crosta. Em uma linha de cerca de 800 km entre as cidades de Camocim (CE) e Serinhaém (PE) serão instalados 400 sensores sísmicos, um a cada 2,2 km, e realizadas explosões controladas para gerar ondas elásticas similares às de pequenos abalos sísmicos, em furos de sondagem de 60 metros de profundidade tamponados com brita, dispostos em locais isolados e afastados da população.
A previsão é que sejam realizados 18 tiros, separados 50 km um do outro, carregados com até duas toneladas de um produto semelhante à dinamite. Segundo o professor do Instituto de Geociências (IG) da UnB Reinhardt Adolfo Fuck, o cálculo para descobrir a espessura leva em consideração a velocidade com que as ondas causadas pelas explosões controladas percorrem a crosta terrestre. "Varia de acordo com a densidade e a estrutura da rocha", explica.
Cada ponto será detonado em seqüência, de forma que todos tenham sido acionados num período equivalente a 48 horas. Reinhardt Fuck explica que é preciso ocorrer intervalos de tempo entre uma detonação e outra para que os aparelhos registrem os dados e, ainda, para que as informações sejam capturadas individualmente.
Pesquisa semelhante feita na região central do Brasil pelo grupo em 2005 mostrou que Brasília está 42 km acima do manto terrestre, onde a temperatura na faixa dos 1000 ºC mantém as rochas em estado de menor viscosidade. Já no norte de Goiás, a medição apontou espessura mais fina, de 36km. Até a conclusão do estudo, conhecia-se apenas a geologia da superfície.
FORMAÇAO - A curiosidade dos cientistas pela crosta no Nordeste - que se restringe aos limites da Província Borborema, uma região geologicamente semelhante de 450 mil km² -, faz parte de um projeto maior para descobrir como essa porção de terra se formou, evoluiu e se estruturou.
Esse tipo de conhecimento vai ajudar os pesquisadores a saber, ainda, porque ocorrem abalos sísmicos nos arredores de Caruaru (PE), João Câmara (RN) e Sobral (CE). Pelo menos 100 pequenos tremores foram registrados na cidade cearense em maio de 2008, conforme informações divulgadas pela Defesa Civil local.
Para entender a motivação científica, basta lembrar que o Brasil está no centro de uma placa tectônica e, teoricamente, livre de terremotos que, ao contrário, são bastante comuns nas bordas dessas gigantescas porções de crosta. "Tremores têm algum significado, dizem algo sobre a região. Queremos saber a que fatores eles estão relacionados", afirma o pesquisador.
A explicação mais plausível é de que esses centros urbanos nordestinos estariam em cima de uma falha, ou seja, um local onde haveria uma ruptura ou uma descontinuidade, no jargão científico. Por isso, a pressão recebida nas extremidades das placas, que deixa sob tensão todo o aglomerado se refletiria nesses locais mais frágeis.
Embora a tese seja a mais divulgada, não se sabe de onde vem essa força que atua no local. Seriam dos limites com a placa africana, à leste, ou com a placa de Nazca, à oeste? Considerando que ambas estão em constante movimento, o choque, encontro, separação ou mergulho de uma sob a outra vão gerar sismos.
FASES - Seja para medir a crosta ou para explicar os tremores, o pesquisador avisa que ainda há bastante chão pela frente. O grupo vai primeiro usar todos os métodos de investigação previstos no projeto. Só depois que todas as informações forem coletadas, serão reunidas e analisadas, pois uma complementa a outra e gera resultados mais confiáveis para todos os objetivos.
Até o momento, já se completou a fase de estudos magneto-telúricos, cujo objetivo é entender como a corrente elétrica passa pelas rochas. "Algumas são mais resistivas e outras mais condutoras", diz. "Ainda que seja um método indireto, temos uma razoável noção do material com o qual estamos lidando ao descobrir essas propriedades."
Esses dados foram coletados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão participante do grupo, por meio da indução de uma corrente elétrica em estações situadas entre Mossoró (RN) e o norte da Bahia, bem como entre Camocim e o litoral de Pernambuco.
Outra etapa adiantada é a das investigações gravimétricas, que analisa as propriedades da rocha pelas variações na aceleração da gravidade e "pode oferecer informações preciosas sobre a variação da natureza das rochas".
Segundo o pesquisador da UnB, os dados serão coletados até o fim de 2008, período previsto para o término do projeto. A interpretação completa dos dados deve levar alguns anos e encerrará um capítulo inédito na busca do conhecimento pela litosfera brasileira.
CONTATO: Reinhardt Adolfo Fuck pelo e-mail reinhardt@unb.br.
POSTADO POR PROF. GEORGE SAND FRANÇA (UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA)