:: 05.06.07 ::

Caatinga e energia


No Nordeste, a lenha e o carvão representam quase 40% da matriz energética da região. Esses recursos são produzidos com baixo aproveitamento e alto custo ambiental

No Semi-árido, milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente da Caatinga para a sua sobrevivência. Essa condição impõe uma degeneração da qualidade ambiental, provocada principalmente pelo manejo incorreto dos recursos ou através do consumo em níveis que superam a sua capacidade de regeneração. É um modelo que fatalmente leva a colapsos naturais, comprovados, por exemplo, pelos processos desertificatórios atuais.

Os dois principais tipos de exploração dos recursos ambientais do Semi-árido são: o de subsistência, relacionado ao homem sertanejo que busca suprir suas necessidades básicas e; a exploração econômica intensiva, baseada em um modelo de maximização de lucro, que atende a demanda dos grandes centros urbanos. Ambas são responsáveis pelo processo de retrogressão dos ecossistemas, porém, esse último é agravado pelo alto custo ambiental em detrimento do baixo retorno às partes envolvidas, no caso, todos que dependem do meio ambiente para sobreviver.

A valoração da natureza é um passo importante para se incorporar ao preço do produto o custo ambiental envolvido no processo de produção, revertendo parte do lucro a projetos ambientais e investimentos em tecnologias menos degradantes. No Nordeste, por exemplo, a lenha e o carvão representam quase 40% da matriz energética da região. Esses recursos são produzidos com baixo aproveitamento e alto custo ambiental: São necessários 7m3 de lenha para gerar 1m3 de carvão. Não obstante, esse produto é vendido a um preço muito baixo e a fumaça resultante da sua queima, em cozinhas e ambientes fechados, provocam milhares de mortes.

Existem diversas estratégias que possibilitam melhorar o rendimento dessa produção, atenuando os impactos ambientais. Dentre alguns, pode-se citar: o fogão solar que é produzido a baixíssimo custo e é comprovadamente eficiente e adequado às residências rurais; o fogão ecológico que utiliza até 50% menos madeira e não produz fumaça; a lenha ecológica e o briquete que são produzidos a partir de lixo vegetal e sua queima chega a ser três vezes mais eficiente e; principalmente, através do manejo integrado dos recursos florestais da Caatinga.

A sustentabilidade ambiental do bioma Caatinga deve ser prioridade dos interesses públicos e civis, inclusive para os grandes centros urbanos que, em meio às estiagens e crises rurais no sertão, irão absorver uma contínua massa de retirantes, ampliando o quadro de exclusão social e agravando o quadro de violência e miséria. Ressaltando que a concentração do capital nas mãos de uma minoria sempre refletirá um sistema social e ambientalmente insustentável.

FÁBIO DE PAIVA NUNES - Biólogo da Associação Caatinga

 

Fonte:Jornal O Povo

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