:: 19.10.08 ::

Terras cearenses escondem riqueza mineral ainda inexplorada

O Ceará, que produz menos de 2% da economia nacional, já observa uma chance de garantir novas divisas
O mundo vive um ´boom´ mineral. Enquanto as bolsas ao redor do planeta enfrentam uma fase de volatilidade, entre fortes quedas e recuperações, o preço dos minérios está em franca ascensão. A demanda por estes produtos se eleva com o desempenho pujante da China e de outros emergentes. Cresce a procura, incentivando uma maior oferta.

O Ceará, por sua vez, Estado considerado pobre, que produz menos de 2% da economia nacional, já observa nesse quadro mundial uma possibilidade de redenção ou ao menos uma chance de garantir novas divisas. Terra seca, a agricultura aqui não é o forte - apenas 6% do produto Interno Bruto (PIB) local -, mas já houve políticos a afirmarem que a riqueza das terras alencarinas não está no solo, mas abaixo dele.

As perspectivas para a mineração local são otimistas, entretanto, não há espaço ainda para superestimar estas oportunidades. Nunca foi encontrado aqui tanto ferro como há em Carajás, no Pará, ouro como se vê em Minas Gerais ou cobre em quantidades similares ao que se tem no Chile. Segundo dados do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), o Estado possui uma mina considerada de grande porte, como consta no último Anuário Mineral Brasileiro, lançado em 2006. Somente a extração de calcário aqui ultrapassa a produção bruta anual de 1 milhão de toneladas.

Mas o setor de mineração vive uma outra realidade. Com a demanda crescente, mesmo jazidas consideradas pequenas começam a se tornar interessantes. Desta forma, percebe-se o início de uma movimentação maior no segmento mineral. As pesquisas no Interior cearense vêm se intensificando, mais empresários estão procurando investir nessas terras.

´Essa procura não é só no Ceará, mas no mundo inteiro. A partir do momento em que aumenta o valor do mineral, cresce o desejo no mundo de explorá-lo. Como as commodities minerais aumentam de preço, os pequenos negócios começam a se tornar viáveis. E este é o caso do Ceará, onde tem mais pequenas ocorrências´, esclarece o geólogo Ricardo Sena, do DNPM. Das 73 minas registradas em 2006 no Estado, 65 são tidas como pequenas (produção entre 10 mil e 100 mil toneladas/ano).

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A demanda por estes minérios se eleva com o desempenho pujante da China e de outros emergentes. Cresce a procura, incentivando uma maior oferta (Foto: SILVANA TARELHO)

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Minério de ferro é o elemento que mais recebe requerimentos de pesquisa no órgão fiscalizador no Ceará (Foto: SILVANA TARELHO)

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Retomada

´Hoje acontece uma retomada da mineração no Estado´, aponta o presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva Mineral, Roberto Amaral. A própria criação da câmara, instalada em abril deste ano, demonstra que esta atividade extrativa passa a ser vista com outros olhos, bem mais atentos. Segundo Amaral, já em 2010 a mineração por aqui deverá mudar como um todo, para patamares mais expressivos.

Prova disso tudo é o aumento da procura por requerimentos no Estado junto ao DNPM, órgão federal que fiscaliza a atividade. Em 2002, quando o departamento passa a disponibilizar estes dados, o Ceará ocupava a 12ª colocação no ranking nacional, com 433 requerimentos. Neste ano, até o fim do mês de agosto, já foram registradas 880 solicitações - mais que o dobro destas expedições, colocando o Estado já na sétima posição no País.

A realidade ainda é bem distante daquela encontrada na Bahia, quando, neste mesmo período, foram feitos 4.158 requerimentos, superando até mesmo Minas Gerais (3.376), tradicional líder nacional. Desde o ano passado, os baianos ganharam essa liderança.

Todavia, os resultados mais recentes apontam que nossas áridas terras possuem, sim, potencial para o setor de mineração. Potencial tão latente que motivou os chineses a atravessarem oceanos para verificar sua real capacidade. 

Sérgio de Sousa
Repórter

DESDE A COLONIZAÇÃO
Retirada sempre foi em pequena escala


O volume de minério retirado no Ceará sempre foi muito pequeno. A exploração mineral aqui começou, assim como em outras regiões do País, nos primórdios da colonização. As argilas, areias e cascalhos eram as principais matérias retiradas, sendo utilizadas na construção civil.

Os minerais metálicos, como ouro e prata, começaram a ser explorados aqui no século XVIII. A retirada de ouro em território cearense teve início ainda em 1750, em Itarema (220 km da capital) e na região do Cariri, segundo mostra o estudo feito pelos geólogos José Carvalho Cavalcante e Manoel William Padilha, presente no livro Rochas e Minerais Industriais do Estado do Ceará.

Em 1758, as pesquisas foram estendidas e foi identificada a presença do mineral em Lavras da Mangabeira, Ipu e Reriutaba, mas a exploração parou logo depois. A sondagem teve uma retomada em 1978, mas, após quatro anos, foi verificado que ´o distrito aurífero do Ceará revelou-se de baixo potencial, sendo economicamente inviável seu aproveitamento´.

Esta realidade, dentro da nova conjuntura internacional, mudou, já que o ouro já recomeça a ser pesquisado no Estado. Da mesma forma ocorre com a exploração do cobre , cujas atividades em Viçosa do Ceará haviam sido paralisadas em 1987, tendo reiniciados os trabalhos há três anos por uma outra empresa. O minério começou a ser aproveitado economicamente no município por volta de 1880 pelos franceses.

Desde o início do século XIX, passaram a ter destaque econômico os calcários da Chapada do Apodi, Sobral e Coreaú, a magnesita de Iguatu e a gipsita da Chapado do Araripe. A magnesita pode ser usada na preparação de produtos químicos com magnésio e fertilizantes. Já a gipsita é a matéria-prima para a produção de gesso.

No final da década de 1980, passaram a ganhar importância também as rochas ornamentais, com muitas áreas promissoras no Estado. De acordo com o DNPM, foram listados, no Ceará, 10 distritos mineiros, onde se concentram a produção do setor. (SS)

Governo propõe incentivos
Lei que institui o FDI elevará o abate de ICMS para 99% nos projetos de exploração de minerais metálicos e não-metálicos

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Estratégia da Sefaz é criar ambiente propício para mineradoras (Foto: SILVANA TARELHO)


Como a marcha da mineração não está sendo dada somente no Ceará, e vários outros estados do Nordeste, e do País como um todo, também possuem potencial para a desenvolver a atividade, a estratégia é criar um ambiente propício para que as empresas mineradoras venham para cá, e não para outros locais.

Ao encontro desta percepção, uma alteração à lei que institui o Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI) deverá elevar o abate de ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços) para além dos atuais 75%, chegando a até o patamar de 99% de desconto para os projetos de exploração de minerais metálicos e não-metálicos que vierem se instalar no Estado.

O texto está na Assembléia Legislativa, e deverá ser lido, como informa o secretário da Fazenda, Mauro Filho, já a partir de amanhã. A desoneração beneficia, segundo explica, vários setores produtivos. "São aqueles que ainda não existem no Estado, como o químico, a indústria automobilística e farmacêutica. A lei diz que o incentivo pode vir a até 99%", afirma. Já no caso da mineração, que já ocorre no Estado, o incentivo, aponta, será para o setor como um todo.

O percentual de abate, argumentou o secretário da Fazenda, deverá ser medido de acordo com alguns fatores, como a distância mínima de Fortaleza. Essa medida tem objetivo descentralizador, favorecendo, assim, os municípios do Interior. O governador Cid Gomes já havia declarado ao Diário do Nordeste, na edição do dia 19/9/2008, que o incentivo no ICMS é necessário. "Eu, sinceramente, não faço isso com gosto. Mas, outros estados têm incentivos de percentuais maiores. Se a gente não se equiparar, ficamos de fora da competição", avaliara o chefe do Executivo estadual. (SS)

Minério de ferro é o mais cobiçadoImprimirEnviarAumentarDiminuir

Necessidade de aço no mercado mundial transformou o minério de ferro no líder de pesquisas no Ceará

Sobral. Motivado pelo crescimento da necessidade de aço no mercado mundial, especialmente na China, onde se há um processo de urbanização de cerca de 800 milhões de pessoas (mais de quatro vezes a população brasileira), o minério de ferro é a vedete da vez. Hoje, o mineral é o mais requerido para pesquisa no Ceará, segundo informa o responsável pelo setor de Fiscalização do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), Fernando Roberto.

Segundo ele, existem várias empresas que já fizeram requerimentos para o mineral no Ceará, entretanto, apenas a Carbomil S/A possui autorização de lavra. A empresa, que possui uma mina em Quiterianópolis, utiliza o ferro extraído para produzir a liga metálica ferro-silício, que é mandada aos Estados Unidos.

De acordo com o Anuário Mineral Brasileiro 2006, o último lançado, foram comercializados naquele ano 24,8 mil toneladas de ferro bruto e 23 mil toneladas de ferro beneficiado, contabilizando R$ 666,2 mil em negócios.

Mas a pesquisa se intensifica em outras áreas além de Quiterianópolis. Municípios como Sobral, Tauá, Barroquinha e Granja já vêm sendo pesquisados por várias empresas.

Entre elas, a Globest, empresa chinesa, já realiza pesquisas no Estado e estuda, junto com a Companhia de Integração Portuária do Ceará (Cearáportos), projetos de infra-estrutura no Porto do Pecém, para que possa ser viabilizada a exportação do minério de ferro por lá. A discussão é como será feito o transporte do mineral, que poderá ser dar por esteiras, trem ou caminhões. As esteiras estão programadas para estarem prontas em três anos.

O presidente da Agência de Desenvolvimento do Estado (Adece), Antônio Balhmann, informou em julho ao Diário do Nordeste que o Estado receberia um investimento de R$ 50 milhões para a exploração do minério em Sobral e Quiterianópolis. Segundo ele, a intenção era de que as primeiras exportações sejam de 1 milhão de toneladas/ano, já começando em 2009, e passando posteriormente para 12 milhões de toneladas anuais.

As pequenas vêm se intensificando em outras áreas do Estado, além de Quiterianópolis (Foto: SILVANA TARELHO)


Entretanto, estes valores são questionados. Segundo representante do DNPM, não se pode falar ainda sobre quantidade de exportação, uma vez que as empresas ainda estão em fase de pesquisa do minério. Nenhuma delas ainda possui licenciamento para comercializar a commodity. (SS)

MERCADO

24 mil toneladas de ferro bruto foram comercializadas no Estado, no ano de 2006


Ferro encravado em Sobral atrai empresa chines

Interior cearense é dotado de um dos minérios mais requisitados no mundo atualmente

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Trabalhador em uma movimentação intensa, carregam picaretas, fitas métricas e outros instrumentos na busca do ferro sobralense (Foto: SILVANA TARELHO)

São José do Torto/Sobral. Em uma área escondida entre a vegetação cinza de queimadas e seca, um movimento discreto começa a se desenvolver há quase dois meses. Carros e trabalhadores passam, sem chamar tanta atenção, carregando picaretas, fitas métricas, entre outros instrumentos utilizados na busca de um dos minérios mais requistados nos mercados mundiais hoje: o ferro. A empresa, que prefere não divulgar o nome, veio da China para explorar as ocorrências registradas no distrito sobralense de São José do Torto, além de outras localidades entre Sobral e Quiterianópolis. A pesquisa ocorre somente no Ceará.

´A Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) tem mapas que indicam ocorrências desde 1970. Sabemos que aqui é uma´, aponta o geólogo gerente do projeto, Cláudio Ramalho.

A empresa já possui alvará de pesquisa junto ao DNPM para pesquisar as áreas. Apesar de não saber se as ocorrências vão dar realmente em uma mina, ele se mostra otimista.

'Filé mignon'

´Os teores são favoráveis, acima de 65% de ferro, o que é uma média excelente. É o ´filé mignon´ do mercado de ferro´. Ele reforça o que já vem sendo bastante afirmado: ´O Ceará se tornou foco pelo aumento da demanda mundial. As pequenas ocorrências, como estas, acabam, se tornando viáveis´. Segundo ele, o fato de existirem várias pequenas minas próximas, acaba se tornando possível economicamente a implantação de uma mina e a logística, que afirma ser bastante cara.

A empresa já mantém negociações com a Companhia de Integração Portuária do Ceará (Cearáportos), responsável pelo Porto do Pecém, para avaliar como pode ser preparada uma infra-estrutura de transporte e escoamento dos produtos que poderão vir a ser retirados.

Reservas indefinidas

Ramalho afirma que não tem como precisar ainda as reservas que existem no local, já que as pesquisas ainda estão sendo feitas. Mas, para viabilizar a produção, as quantidades precisam ser superlativas. ´Sempre se trabalha em milhões de toneladas. A Vale, por exemplo, vende cerca de 100 milhões de toneladas/ano´.

´Qualquer mineração é risco, mas pelas evidências, a gente acredita. Estamos diminuindo os riscos. Quanto mais trabalha, menos incerteza´, explica o geólogo. (SS)

OCORRÊNCIA

1970 é desde quando a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais indica ocorrências de ferro no local

Pesquisa não garante lavra

A maioria das empresas que pesquisam minérios, aqui ou em qualquer lugar, não chega à fase da lavra

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Até agosto último, havia no Ceará 772 requerimentos de pesquisa, mas apenas 14 de lavra garimpeira (Foto: SILVANA TARELHO)

Apesar do momento otimista que a mineração no Ceará vive, é preciso fazer uma ressalva: área pesquisada não significa, necessariamente, área que será explorada, lavrada. ´A mineração é uma atividade de alto risco´, esclarece o orientador da equipe de Fiscalização do DNPM, Fernando Roberto. E os investidores da mineração do Ceará, em coro, confirmam afirmativa. Segundo Roberto, a maioria das empresas que pesquisam não chegam a lavrar.

´Mas isso é em toda parte´, ressalta. Exemplo disso, informa, é a Vale, a maior mineradora do País. ´Ela não tem nenhuma mina no Ceará, apesar de fazer pesquisas há pelo menos três décadas por aqui´.

Até agosto desse ano, havia aqui 772 requerimentos de pesquisa, mas apenas 14 de lavra garimpeira.

Além disso, existem, atualmente, 174 portarias ativas no Estado, ou seja, 174 áreas com permissão para explorar, o que não quer dizer que elas estejam sendo lavradas.

Muitas minas param quando a atividade deixa de se tornar interessante economicamente, e voltam aos trabalhos quando a conjuntura nacional ou internacional passa a favorecer a produção do determinado tipo de minério.

Maturação

Já as áreas que possuem ocorrência, mas ainda não são consideradas como minas, têm ainda que passar por um longo processo de estudos até ter a certeza de que poderão, enfim, ser viabilizadas. ´Para maturar um projeto, entre pesquisa, dimensionamento, viabilidade econômica, é de cinco a10 anos´, informa Cláudio Ramalho, que é o geólogo gerente de um projeto de pesquisa em minério de ferro em Sobral. Quando se interessa por uma área, a empresa tem apenas o indício de que há a presença de certo minério, mas não a quantidade que tem. Daí, começam as pesquisas, que podem, ou não, ter sucesso. ´Para iniciar a lavra, são analisadas a quantidade e a qualidade do minério. A quantidade vai mostrar se é viável comercializar, e a qualidade vai definir o uso do mineral´, explica o engenheiro de minas do DNPM, Humberto Cavalcante. 

Crescerá o número de empregados no setor

Dados mostram que, no ano de 2005, em todo o Estado, havia 3.816 pessoas trabalhando no setor de mineração

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Seu Basílio comanda os operários do distrito de São José do Torto (Foto: SILVANA TARELHO)

Na entrevista, a voz é baixa e o jeito, tímido. Fala olhando pro chão, pra picareta que traz nas mãos, pras rochas que tem a incumbência de retirar do solo. No trabalho, entretanto, a voz de Seu Basílio tem a autoridade de organizar os operários que, assim como ele, trabalham na trincheira instalada nas áridas terras do distrito de São José do Torto, a 35 quilômetros de Sobral.

Ele, que mora em Quiterianópolis, é um dos 20 trabalhadores que se ocupam, juntamente com um grupo de geólogos, da pesquisa de minério de ferro na área. "É bom pra quem vive no campo, a mineração dá serviço pra gente", comenta. Assim como ele, um número crescente de pessoas vêm encontrando uma oportunidade de serviço através da atividade mineradora. Contudo, no Ceará, estes ainda representam uma parcela pouco significativa dos trabalhadores. Segundo o Anuário Mineral Brasileiro 2006, o mais recente, o Estado possuía, em 2005, 3.816 pessoas trabalhando no setor, entre empregados, terceirizados e cooperativados. A quase totalidade (95,65%) destes ocupa-se com minerais não-metálicos, com destaque para o calcário (821) e argilas (793), além de rochas ornamentais (545).

Nos metálicos, só são registrados aqueles que trabalham com minério de ferro (165), já que os dados não contemplam, ainda, pesquisas realizadas no Ceará, como em minério de cobre, que hoje emprega 74 pessoas em Viçosa, e que, em 10 meses, serão 400.

"O Ceará vai demandar muita mão de obra no setor", afirma o presidente da Câmara Mineral do Ceará, Roberto Amaral. Isso, explica, tanto pelas novas pesquisas que estão surgindo, como com o aumento da produção das minas e pedreiras já existentes, com a elevação da demanda mundial por estes materiais.

Somente a mina de urânio e fosfato de Itataia, em Santa Quitéria, irá demandar 500 empregos diretos, e, se somados aos indiretos e atraídos, o número pode chegar a 3 mil.

Entretanto, segundo Amaral, o maior potencial na geração de empregos está na atividade ligada às rochas ornamentais. "Isso porque a capilaridade nestes produtos é bem maior, já que existem ocorrências de rochas ornamentais em várias partes do Estado", justifica o presidente.

De acordo com o geólogo Cláudio Ramalho, a mineração, a cada um hectare, emprega cerca de 50 pessoas. "Dependendo da mineração, desde o escritório à frente de extração", explica. "Ela [a atividade mineradora] é muito importante porque fixa o homem no campo", completa. (SS)

Ceará terá bureau para incentivo

O órgão fornecerá informações sobre mineração no Estado a empresários interessados em investir aqui

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Estímulos estatais favorecem desenvolvimento do setor (Foto: SILVANA TARELHO)

A mineração cresce no Brasil inteiro e, percebendo o interesse reforçado, alguns estados saem na frente em busca de incentivar o desenvolvimento do setor em seus territórios. Para tentar integrar e concentrar as informações da atividade mineradora no Ceará, o Governo do Estado pretende, até o final do ano, criar um bureau mineral.

´Já que o governo não tem um órgão que articule o setor, como tem na Bahia, em Pernambuco e em outros estados, se chegar um empresário do setor mineral aqui, tendo o bureau, ele encontra onde conversar sobre o assunto, tem um atendimento personalizado´, explica o presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva Mineral, Roberto Amaral. A câmara foi criada em abril, e o bureau é a primeira demanda do grupo a ser atendida pelo governo.

´O bureau já começou a ser implementado pela Adece [Agência de Desenvolvimento Econômico do Ceará] e vai funcionar lá. Será uma entidade dentro do governo tratando do assunto da mineração´, explica. Segundo ele, estarão sendo contratados especialistas na área para trabalhar no bureau, que será subordinado à Adece.

Exemplos nos estados

A iniciativa estatal de investir no setor mineral vem dando resultados bastante positivos na Bahia, por exemplo. O Estado passou de 1.548 requerimentos de empresas no DNPM, em 2002, para 4.158, em 2008, contabilizando os dados somente até o mês de agosto. O resultado não foi por acaso, diz o diretor de Assuntos Minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Marcelo Ribeiro Tunes.

´Tradicionalmente, Minas Gerais era maior, ainda é, e vai permanecer o grande produtor mineral. Mas, à medida que se aumenta o conhecimento de geologia, alguns lugares começam a serem mais pesquisados. É o que ocorre em alguns estados que resolveram complementar o governo federal a fazer levantamentos geológicos e aerofísicos´, aponta.

Como na Bahia. Tunes diz que, com recursos da produção mineral, o governo baiano começou a investir nesses levantamentos. Minas Gerais também faz isso, assim como Mato Grosso e Goiás. ´Eles dão informações mais precisas sobre os seus solos, o que fez com que um interesse maior se voltasse a essas áreas´. A iniciativa ainda não chegou aqui. Mas é um bom exemplo a seguir. (SS)

NA BAHIA

4.158 requerimentos de empresas no DNPM, em 2008, resultado da iniciativa estatal de investir no setor

Estrangeiros de olho no cobre

Gerente de mina, em Viçosa, garante que não é difícil encontrar comprador para o cobre cearense

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Mina de cobre em Viçosa do Ceará deverá gerar um faturamento bruto de US$ 35 milhões mensais, quando em pleno funcionamento (Foto: SILVANA TARELHO)

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Viçosa do Ceará. Encontrar compradores para o cobre cearense, ao que parece, não será uma tarefa difícil, como garante o gerente da mina em Viçosa do Ceará, Augusto Bolivar. Ele informa que a mina já recebeu duas visitas do exterior recentemente, uma com americanos, outra com canadenses. ´Não é difícil achar´, afirmou. Há a certeza de que vamos comercializar o cobre, a demanda é muito grande´, garantiu. Os Estados Unidos já queriam exclusividade do fornecimento por três anos, informou.

O minério, quando extraído, será escoado através da CE-311, que, atualmente, no caminho entre a sede de Viçosa e a fazenda, ainda está em condições impraticáveis.

A estrada é de terra e, em alguns trechos, é impossível a passagem de dois veículos em direções contrárias. Mas essa questão, destaca Bolivar, já está sendo resolvida. Toda a estrada que leva do município até Granja, trecho de 69 quilômetros, está sendo asfaltada.

Quando em pleno funcionamento, a mina deverá gerar um faturamento bruto de US$ 35 milhões mensais. Com a reserva atualmente estimada em 50 milhões de toneladas (ROM), a mina, que é considerada de média para grande, poderá garantir divisas por cerca de 20 anos, podendo chegar ainda a produzir por bem mais.

´Nós sondamos até 600 metros, mas já deveremos voltar a sondar, e faremos isso enquanto tiver minério, cerca de dois mil, três mil metros. Certamente, vamos descobrir mais´, afirma o gerente da mina, Augusto Bolivar. (SS)

Mina é esperança de redenção para a comunidade local

O Assentamento Morrinhos quer compartilhar das riquezas que estão guardadas abaixo do solo
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Aproximadamente 50 famílias convivem com o desemprego e com a falta de infra-estrutura básica para a moradia, mas acreditam que essa realidade, enfim, vá mudar (Foto: SILVANA TARELHO)

Santa Quitéria. ´A gente mora em cima da riqueza que tem embaixo´, diz o desempregado Antônio Tomé da Silva. Ele reside a apenas seis quilômetros da mina de Itataia, em um assentamento que hoje respira expectativa.

São aproximadamente 50 famílias que convivem com o desemprego e com a falta de infra-estrutura básica para a moradia, mas acreditam que essa realidade, enfim, vá mudar.

Depois de uma espera que já soma lá seus 30 anos, o Assentamento Morrinhos, o mais próximo de Itataia, quer compartilhar das riquezas que estão guardadas abaixo do solo.

Seu Tomé, que tem 36 anos e estudou apenas até a quarta série do Ensino Fundamental, nunca se empregou. ´Eu não tenho grau de estudo alto, mas espero alguma coisa´, conta, sem saber muito bem como poderá se inserir no processo que agora toma fôlego.

´O sonho da gente é conseguir emprego´, destaca. Faz muitos anos que ele ouve falar da exploração da mina, mas acredita que agora deslancha. ´A gente vê pela TV que a mina vai dar emprego, e a gente fica na expectativa. Estou pedindo a Deus que dê certo´, conta.

E ele não é o único. Mesmo parando os estudos na quinta série, Marcelo dos Santos, 18 anos, que está também desempregado, torce por uma vaga na mina. ´Eu tenho três irmãos e três irmãs, e tá todo mundo esperando. Assim, a gente vai poder ajudar na família´, diz. De acordo com José Roberto, que é professor de Português na única escola que existe na localidade, todos os moradores estão ansiosos pelos postos de trabalho que surgirão com a retirada do fosfato e do urânio na terra vizinha.

´Aqui tem muitos jovens desocupados. Eles trabalham na roça, produzindo feijão, milho e mamona. No verão, não tem rendimento´, informa. A esperança de que a mina daria certo, e de que traria benefícios a este e ao outro assentamento - que se localiza a 16 quilômetros da Fazenda Itataia, onde moram mais 16 famílias - é antiga e, ainda assim, permeada por dúvidas.

Sempre se esperou pelos empregos que poderiam surgir, mas, com o passar das longas três décadas, um certo ceticismo sempre despontava. ´Mas, quando o governador veio, e assinou contrato com o empresário da INB, todo mundo acreditou. A mina é um sonho´, afirma José Roberto.

Mas ele sabe que a garantia do emprego só poderá vir com um mínimo de capacitação. ´Podem ter empregos desde a mão-de-obra da construção civil a escritório. Tem muita gente concluindo o Ensino Médio. Quando tiver uma preparação, todo mundo pode trabalhar lá´, acredita. (SS)

O QUE ELES PENSAM
Trabalhadores esperam por novas vagas


´Já trabalhei na barragem da mina, nas galerias, cavando, tirando as pedras, enchendo cacimba com as pedras. Isso em 1982. Trabalhei com geólogo, procurando o minério, com o centilômetro. Sempre acreditei que a mina ia beneficiar a região, que é muito sofrida. Com essa idade, não vou mais conseguir emprego lá. Agora, são os meus filhos. Tem um que tá se preparando´. 
Francisco Tomé da Silva - Agriculto

Eu terminei o segundo grau e trabalho agora vendendo roupa e perfume, que eu compro em Fortaleza. Desde sempre escuto sobre a mina. Antes, não acreditava que iria dar certo, mas agora acredito, porque vejo falar na TV. Estou me preparando para o emprego, fazendo curso de computação. Ainda não tenho idéia do que eu posso fazer lá. E quero o emprego porque quero continuar aqui e essa é uma oportunidade´. 
Gláucia Tomaz - Vendedora autônoma


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