:: 26.01.08 ::

Governança corporativa: perspectivas de mercado

Pedro Jorge Ramos Viana

...o maior problema que determina a timidez do mercado de ações no Brasil é o governo federal, com a sua prática de manter um mercado cativo para os seus títulos, obrigando os bancos e os fundos de pensão a manter uma determinada proporção de seus ativos em títulos federais

O mercado de capitais no Ceará, apesar de todo o hercúleo esforço dos dirigentes da antiga Bolsa de Valores do Ceará, vinha padecendo de vários problemas crônicos: um devido à própria formação do empresariado cearense, mais afeito aos incentivos fiscais que aos riscos do mercado de capitais. O segundo dizia respeito à prática muito comum de o "dono da empresa" ser presidente, diretor comercial e, principalmente, diretor financeiro. Ou seja, não havia a prática da contratação de especialistas na área financeira como diretor da empresa. O terceiro, está ligado à volatilidade do mercado de ações, isso fruto da manipulação, por parte de uns poucos, do mercado bursátil brasileiro, o que favorece o afastamento dos potenciais usuários do mercado de capitais como supridor de recursos para as empresas.

No entanto, o maior problema que determina a timidez do mercado de ações no Brasil é o governo federal, com a sua prática de manter um mercado cativo para os seus títulos, obrigando os bancos e os fundos de pensão a manter uma determinada proporção de seus ativos em títulos federais. Títulos esses que determinam uma concorrência predatória no mercado de capitais, pois apresentam boa liquidez, excelente retorno e risco zero, ofertas que nenhuma ação de empresa privada pode oferecer.

Esse último problema está longe de ser resolvido. Entretanto, os outros citados estão sendo "trabalhados" , com perspectivas de solução muito em breve. Isso porque, com a insignificância cada vez maior dos recursos de incentivos fiscais como formadores dos capitais das empresas e com o começo da maior globalização da economia, os empresários começaram a perceber que era necessário estabelecer nova governança para suas empresas, procurando infundir-lhes uma direção mais tecnicamente qualificada, principalmente na área das finanças corporativas.

Aqui vale a pena repetir-se o conceito de governança corporativa, haja vista as muitas confusões que são feitas. Aqui se entende "governança corporativa" como o conjunto de práticas e relacionamentos entre os acionistas ou quotistas, o Conselho de Administração, a Diretoria, as Auditorias, o Conselho Fiscal, visando à transparência e à otimização do desempenho da empresa e ao acesso aos capitais necessários para o seu crescimento.

No caso particular dos empresários cearenses, a tradição era de empresas familiares, fechadas, que passavam de pai para filho, sem nunca abrir seu capital. Mas há algum tempo os empresários cearenses estão se voltando para o mercado de capitais como o fornecedor, mais barato, mais ágil e menos burocrático, de capital para suas empresas. Isso até como conseqüência do Prêmio Delmiro Gouveia. A "governança" de fato está existindo!

Entretanto, há ainda a necessidade de se difundir neste mercado alguns conceitos de custo, como custo "implícito", custo "econômico" ou custo "efetivo". Quando os agentes produtivos dominarem tais conceitos, com certeza o mercado de capitais do Ceará dará um salto quantitativo e qualitativo de grande expressão, porque, então, os empresários concluirão naturalmente que a capitalização via mercado de capitais é o caminho mais eficaz e eficiente para o crescimento de sua empresa.

Pedro Jorge Ramos Viana - Economista, coordenador da Unidade de Economia e Estatística do INDI - Instituto de Desenvolvimento Industrial do Ceará/FIEC

Fonte: O Povo

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