:: 27.06.07 ::

Brasil travado

Affonso Taboza

Vivemos no País um processo de desindustrialização, é duro reconhecer. O que conseguimos criar de infra-estrutura industrial ao longo de muitos anos, começa a se perder com visível rapidez. A invasão de produtos estrangeiros, sobretudo do Leste da Ásia, é preocupante. Industriais brasileiros estão diminuindo a produção e importando similares estrangeiros para revenda junto com os produtos de suas fábricas. Indústrias abandonam insumos fabricados no Brasil e trazem similares da China, Coréia, e alhures. Se nossos produtos não são competitivos, a saída é misturá-los com os de fora para enfrentar as agruras do mercado.

Culpa do câmbio? Não amigos, culpa do engessamento do País. Jogar a culpa no câmbio nem chega a ser uma meia-verdade. É apenas um quinto da verdade, o último quinto, o de menor importância.

Na minha visão, cinco grandes monstrengos atrapalham a marcha do País: as legislações tributária, trabalhista e previdenciária, a irracionalidade dos juros e, por fim, o câmbio.

A valorização do real tem dupla face. Se de um lado atrapalha as exportações e facilita a entrada de importados para concorrer com a produção interna, por outro ajuda a conter a inflação, facilita a importação de equipamentos para a indústria, barateia produtos essenciais de áreas importantes como a informática, e torna menos onerosa a dívida externa. Nossa política de câmbio flutuante está correta e pouco pode o Governo fazer para evitar a queda do dólar. Moeda é mercadoria e, como tal, não se pode tabelar.

Os juros altos são, de fato, um problema sério, e não entendo a omissão do Governo em intervir no sistema bancário para conter os absurdos. Baixa a Selic mas os juros na ponta continuam nas alturas. Mas, apesar da pancadaria geral em cima dos juros, acho que eles ocupam o quarto lugar na escala de importância dos vilões.

O "gesso" está nas legislações tributária e trabalhista. A previdenciária entra como coadjuvante, forçando o aumento dos tributos. Se não houver uma ação decidida do Governo pra reformar estas áreas, será difícil a ascensão do País. As legislações citadas criam uma teia intrincada, de difícil compreensão e de custo altíssimo para as empresas, que aumenta a cada dia e se robustece através de medidas provisórias, instruções normativas, portarias, resoluções, e todo tipo de maldição que a burocracia inventa.

O País está crescendo, é verdade, mas modestamente, com esforço inaudito. Em velocidade de alpinista subindo o Everest. Poderia disparar se não estivesse de pés e mãos atados, dentro de um nó formidável que ele mesmo construiu e que diabo nenhum consegue desatar.

Repito: juros e câmbio são peões no processo de atraso do País, pois seus efeitos, quando nefastos, são conjunturais. O nó real está em leis retrógradas, permanentes, verdadeiros monstros sagrados que o governo teme enfrentar.

AFFONSO TABOZA é engenheiro civil e militar, empresário, coronel reformado do Exército e diretor da Fiec-Federação das Indústrias do Estado do Ceará

Fonte: O Povo

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