:: 02.12.07 ::

Amor e simplicidade como modelo de gestão


Simplicidade, regras claras e bem definidas e uma pitada generosa de amor. Com essa receita, o presidente do Grupo Bretas, Estevam Duarte de Assis, transformou um armazém de 170 m² e apenas sete funcionários em uma cadeia de supermercados com 52 lojas e 9.500 colaboradores Como foi assumir o controle de uma empresa sem nenhuma experiência administrativa e como surgiu essa ´bandeira´ do amor na empresa?

Na época tinha sete pessoas trabalhando registradas num ´armazém´ de interior de 170 m². No dia que cheguei lá, um engenheiro, de 29 anos, sem experiência nenhuma em supermercado, eu falei na reunião que fizemos com os doze sócios que dentro de dez anos nós estaríamos entre as dez maiores empresas do País. E o pessoal riu muito, fez críticas, por que como pode um menino do interior sem dinheiro nenhum, sem nada, falar essas coisas?

E então, o que aconteceu?

Minha irmã caçula perguntou: Em que você pensou na hora que falou isso? Aí eu disse: ´É porque nós vamos ser uma empresa com mais amor, que vai chegar junto das pessoas, vai participar, tentar fazer com que os meninos sejam participantes, nós vamos caminhar juntos, de portas abertas, de mãos dadas, enfrentar os problemas juntos´. Foi então que começou essa história do amor.

Essa teoria do amor acabou se tornando uma estratégia empresarial inédita que deu certo, não é? Fale um pouco dos resultados colhidos.

. Temos lojas médias na faixa de 30 checkouts, cada uma. Não é um supermercado pequeno e também não é daqueles grandões. A empresa deve fechar o ano com faturamento de R$ 1,6 bilhão e no ano que vem nosso objetivo é ultrapassar os R$ 2 bilhões de faturamento, com a abertura de mais dez lojas.

Essa expansão contempla o Nordeste e, sobretudo, o Ceará?

A gente ainda não tem projeto para expandir para fora dos mercados em que atuamos hoje. Nosso foco é no interior.

Todo o seu modelo de gestão e história como empreendedor tem relação íntima com sua opção de vida no campo da religião. É verdade que você fez votos de pobreza?

Conheci a minha esposa em encontro de jovens. Casamos e continuamos na religião. Resolvemos que não acumularíamos mais nada nessa vida. Então tudo que recebemos como pessoa física, seja salário, aluguel de imóveis, participação nos lucros, a gente tira uma pequena parte para nossas despesas do mês e o restante a gente doa tudo. Isso porque a gente acredita que já temos uma empresa, não temos filhos... Então usamos tudo que ganhamos para ajudar as pessoas a conseguirem um mundo melhor, mais perto de Deus. Temos dois Pálios 1.0 e moramos em apartamento alugado, que não tem televisão, nem computador, DVD, freezer ou geladeira duplex. Descobrimos que Deus nos fez livres para amar sem precisar de nada.

Você fala de sua empresa como se tudo tivesse dado certo por intuição. Mas no mundo dos negócios, o que os especialistas defendem é a necessidade de planejamento estratégico, da profissionalização. O que você diz desse choque de idéias?

Primeiro nós acreditamos que em supermercado é preciso ser humilde, porque a gente lida com muitas pessoas, com muito peso, com muitos produtos. Depois nós acreditamos que o supermercado não tem nada de difícil. Tudo que for difícil está errado. É 1% de inteligência e 99% de braço. Se você não pegar uma caixa no depósito, não abrir, não botar na prateleira, colocar o preço, então não vai acontecer. Para trabalhar com as pessoas num ambiente desses todos os dias, é preciso criar um ambiente feliz.

Mesmo com toda essa simplicidade, é verdade que o Grupo Bretas investe pesado em treinamento?

Nosso investimento é enorme. Primeiro, nosso objetivo é trabalhar, 90% das pessoas que entram no nosso quadro são de primeiro emprego. Queremos ensinar, formar as pessoas dentro de uma cultura nova. Depois temos um projeto forte que é a formação de gerentes. Hoje temos 70 gerentes em formação. O Bretas investe R$ 300 mil por mês em formação de gerentes. E isso empurra toda a empresa para frente. São meninos que entram como empacotadores, depois viram encarregados e depois gerentes. O gerente formado no Bretas tem mais credencial que uma pessoa formada em curso superior. Ele nunca mais conseguirá salário menor que R$ 2 mil.

Quando você previu há 21 anos a trajetória de sucesso da empresa, disse que os funcionários e o Bretas iriam caminhar juntos. Como isso acontece na prática?

Uma coisa boa que criamos foi um encontro de integração para todos os colaboradores que fazem um ano de casa. Eles vão para nosso hotel-fazenda, na cidade que originou tudo isso e ficam quatro dias assistindo palestra de amor, conhecendo tudo que a empresa pensa. Todos os nossos colaboradores também têm direito de saber a meta de venda da loja e todos recebem algum tipo de participação. Jesus falou: ´Já não vos chamo servos porque vos dou tudo a conhecer´. E o conhecer, quer dizer participar.

É verdade que tentou se aposentar, mas foi impedido?

A gente estava a seis meses do tempo de pedir a aposentadoria e eu estava decidido a sair da empresa para me dedicar às coisas de Deus. Mas nossos amigos bispos e padres interviram e pediram que não me aposentasse, a não quando houvesse motivo de saúde. Segundo eles, há muitos aposentados sendo voluntários na igreja, mas presidente de empresa engajado na igreja e dando testemunho não existe.

Você fala de ser suave com as pessoas, mas como o Bretas lida com desonestidade, por exemplo?

Há duas coisas que não aturamos no Bretas: roubo e mau relacionamento. No roubo, além de perder o controle da empresa, a gente perde a confiança na pessoa. O mau relacionamento, a gente tenta trabalhar, coloca a pessoa em cursos, mas se ela não muda, continua arrogante, então não serve para a gente. No Bretas todas as pessoas são ouvidas e todos têm que ser simples. A química do amor é uma troca. E para escutar o outro é preciso ter humildade.

Existem regras também para sócios e herdeiros?

No caso dos herdeiros dos sócios, têm que cumprir sete metas: curso superior, pós-graduação, morar nos EUA por um ano, passar no curso de gerente, se formar como gerente, ser considerado pessoa de bom relacionamento e uma pessoa honesta. E todo mundo sabe as regras porque são transparentes.

Quais os investimentos do grupo para 2008?

Estamos planejando investimento de R$ 120 milhões para 2008 (Nota da Redação: 33% a mais do que em 2007). Trabalhamos com o BNDES; direto com outros bancos, financiamento automático... Como é uma empresa de 54 anos, que tem todas as certidões e não tem nenhum processo contra ele, consegue hoje tudo que precisa. É claro que 100% do que ganhamos reinvestimos, e mais esses financiamentos, pois temos muitos imóveis, que damos em garantia.
FIQUE POR DENTRO - Administração cristã

Com a filosofia ´Duro com os problemas, suave com as pessoas´ e adotando o lema ´Gente que gosta de gente´, o empresário Estevam Duarte de Assis, que já foi missionário na Amazônia, norteia sua administração por princípios cristãos, tendo como diferencial um modelo peculiar de gestão com ênfase no amor pelas pessoas.

´A gente tem que encarar as dificuldades e tentar trabalhar elas, mas com as pessoas você tem que ser suave porque elas não erram porque querem, mas porque não foram motivadas o suficiente ou não foram treinadas´, costuma dizer para explicar seu modelo de gestão.

Estevam fez voto de pobreza. Ele e a esposa sobrevivem com aproximadamente R$ 3 mil, que corresponde a cerca de 3% da remuneração mensal referente ao cargo de presidente do Bretas. O restante é doado para projetos religiosos.

O faturamento da empresa é 100% reinvestido nela. Para 2008, a previsão de investimento é de R$ 120 milhões, o que inclui planos de abertura de mais dez lojas nas regiões de Minas Gerais e Goiás. Apesar de uma das lojas ser em Goiânia (capital), o foco da empresa é a expansão pelo interior.

Com 54 anos de existência, o Bretas tem 9.500 funcionários, devendo chegar no ano que vem a 11.500. A rede está instalada no interior dos estados de Minas Gerais e Goiás (capital e interior) com 52 estabelecimentos. Uma curiosidade: o nome Bretas vem do sobrenome da geração do avós de Estevam Duarte de Assis.


Fonte: Diário do Nordeste

Voltar