O Ceará e a Fiec, antes de mais nada, precisam de lideranças corajosas e ousadas, que trabalhem sol a sol para realizar a grande tarefa que os cearenses e os industriais depositarão em suas mãos
Cláudio Ferreira Lima
O Ceará está na muda. Termina um ciclo, começa outro. Aliás, desde 1999, isso já era crônica anunciada. Não é hora, pois, de panos mornos, mas, isto sim, de grandes decisões e, daí, de coragem e ousadia em todos os recantos e instâncias do Estado.
É nesse quadro que se situam as eleições da Fiec - e não haveria de ser diferente - em conjugação com as do Ceará e do Brasil. Não se pode mais continuar marcando o passo. Em 1998, o Ceará chegou a gerar 2,06% do PIB do País. Em 2003 - últimos dados do IBGE -, cai para 1,83%. Pará, Espírito Santo e Goiás nos passam a perna. Amazonas já está na cola. A própria indústria perde posição relativa: segundo o Ipea-Data, em 1998, participava com 18,36% do PIB industrial do Nordeste; em 1999, começa a despencar, para, em 2003, ficar com 12,49%.
Ora, nada ilustra melhor a indústria do que a roda dentada. De fato, ela é a peça da engrenagem que puxa a agropecuária e impulsiona os serviços, imprimindo a dinâmica da economia como um todo. E, ao deter papel tão crucial no mundo dos negócios, tem necessariamente, como representação de classe, forte influência na sociedade e no processo decisório do Estado, na condição de parceiro inevitável e privilegiado do governo. E assim tem sido no Ceará, onde o Sistema Fiec, que congrega os sindicatos, o Sesi, o Senai e o IEL, desempenha com realce esse papel, com presença destacada nos ciclos que marcaram a história econômica recente.
Tal foi no começo dos anos 1960, quando o Ceará ingressou de fato na industrialização, assim como, no final dos anos 1980, quando se iniciou o ciclo que ora se encerra, deixando o rastro de ampla infra-estrutura, que constitui um patamar superior sobre o qual poderá erguer-se um novo Ceará. O Complexo do Castanhão, os Perímetros de Irrigação, a energia rural, a nova matriz energética, o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, o Complexo do Turismo, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, a Escola de Saúde Pública, a rede escolar de nível médio, as infovias do conhecimento, os Centecs/CVTs, os campi avançados das universidades, e assim por diante, tudo isso tem de ser utilizado a serviço da população.
Além do mais, logo virão se encaixar os projetos de Integração do São Francisco e da Transnordestina. Nesse contexto, há de se buscar as parcerias estratégicas a fim de se aproveitar as oportunidades, por meio de iniciativas e investimentos complementares.
Deve-se, para tanto, mobilizar a sociedade, estimular o setor privado e estreitar a articulação com o governo federal, em particular com os organismos aqui sediados, e que têm ajudado muito, mas que poderão fazê-lo mais ainda nesta encruzilhada histórica, como o Dnocs, o Banco do Nordeste, a Embrapa e o Incra, entre outros. Da mesma forma, com as agências multilaterais, os governos estrangeiros e o terceiro setor.
Por tudo isso, o Ceará e a Fiec, antes de mais nada, precisam de lideranças corajosas e ousadas, que trabalhem sol a sol para realizar a grande tarefa que os cearenses e os industriais depositarão em suas mãos.
CLÁUDIO FERREIRA LIMA é economista, membro efetivo do Conselho Federal de Economia